Boletim Agrofinanças | nº 31 | Julho | 2011


A Rentabilidade da Próxima Safra de Grãos

A safra brasileira 2010/11 de grãos deve ser a melhor da história, com o volume de 162 milhões de toneladas, segundo o último relatório da CONAB. A Safra Verão foi marcada apenas por alguns problemas pontuais de excesso de chuva no período de colheita no MS, que prejudicou em até 30% a produtividade potencial da soja em algumas regiões. No Triângulo Mineiro, alguns municípios também apresentaram problemas relacionados ao excesso de chuvas (quebra de 15% da soja e do milho). Quanto à Safra Inverno, até o momento há problemas relacionados às fortes geadas a partir do final de junho no Paraná (expectativa de quebra de 35% do milho safrinha e 9% no trigo) e estiagem em alguns municípios do Centro-Oeste.

No tocante à rentabilidade dos produtores de grãos, a Safra 2010/11 também foi uma das melhores da história, como resultado da combinação entre altos preços das commodities a partir do segundo semestre de 2010 e custos de insumos mais baixos no primeiro semestre do mesmo ano. O trigo foi a cultura que apresentou a menor variação de preço entre os primeiros semestres de 2010 e 2011.

Gráfico 1: Variação de preços médios recebidos pelos produtores:
1º Sem. 10 x 1º Sem. 11


 
Para a Safra 2011/12, apesar da manutenção dos bons preços dos grãos, há um impacto negativo sobre a rentabilidade dos produtores, em função de aumento dos custos operacionais de produção. Os fornecedores de insumos reajustaram os preços em 2011, como forma de apropriação da margem da cadeia. Nas cadeias da soja e do milho, os maiores aumentos foram dos fertilizantes e sementes. Para os defensivos, a variação média de preços foi negativa entre 2010 e 2011. Apenas os produtos de maior tecnologia agregada apresentaram variação positiva no período. Também houve reajuste da mão-de-obra no campo, acompanhando o salário mínimo e a inflação. Abaixo, mostramos a evolução anual dos grupos de insumos importantes na formação de custos de produção da soja e milho verão e mão-de-obra.
 
Gráfico 2:  Variação de preços de insumos agrícola e mão-de-obra no campo:
1º Sem. 10 x 1º Sem. 11


 
Observamos antecipação no movimento de compra de insumos em diversas regiões para a Safra 2011/12. As instituições financeiras também aproveitaram para antecipar a liberação de crédito para essa safra, como forma de garantir o mercado em um cenário de maior liquidez. Os fornecedores de insumos ampliaram as campanhas de troca (produção x insumo) e aumentaram a abrangência regional das ofertas. No RS, as operações de troca continuam ganhando força. No PR, as cooperativas também vêm adotando essas operações como alternativas de venda de insumos aos produtores. No Cerrado, de forma geral, as vendas de soja estão mais adiantadas que na safra anterior, resultado de melhor gestão do produtor para fazer hedging da produção. No MT, por exemplo, 21% da safra já foi negociada até o início de julho de 2011, contra 15% no mesmo período do ano passado, segundo dados do IMEA. Os produtores que adquiriram os insumos no primeiro trimestre de 2011 terão um custo operacional mais baixo que os demais produtores.

Para o MT, o impacto sobre os preços da próxima safra são maiores do que os ocorridos em demais regiões. Isso porque os produtores foram prejudicados com a venda antecipada no primeiro semestre de 2010, quando os preços das commodities ainda estavam mais baixos. Esse impacto pode ser observado pela Tabela 1 para a cultura da soja. Em relação ao RS, o impacto da nova safra sobre os preços é menor, já que a comercialização concentra-se mais no mercado spot a partir de abril.   

Tabela 1: Indicadores Econômicos da Soja para Regiões Selecionadas



1: a produtividade da Safra 11/12 considera a média dos últimos 5 anos mais incremento tecnológico esperado
2: O custo operacional de produção inclui arrendamento de terra e despesas pessoais do produtor, mas não considera depreciação de máquinas e benfeitorias e nem custo de oportunidade da terra e do capital.

Como conseqüência da combinação entre preço de venda e custo de produção, há uma expectativa de diminuição da rentabilidade da soja em quase todas as regiões analisadas. As exceções são: Sapezal/MT, que apresenta melhora no preço médio de venda e Uberlândia/MG, que apresentou quebra produtiva na Safra 2010/11 em função de problemas climáticos.

Gráfico 3: Rentabilidade Operacional da Soja (R$/ha)

 
   
Em relação ao milho verão, diferentemente da cultura da soja, a perspectiva é de que a rentabilidade da Safra 2011/12 seja maior que a rentabilidade obtida na Safra 10/11. Isso porque o preço dessa commodity apresenta uma elevação superior à elevação do custo operacional de produção. Adicionalmente, espera-se um ganho de produtividade, em função da maior adoção de tecnologia, expressa na utilização de híbridos de maior potencial produtivo e melhor adubação de plantio, propiciados pelo maior ganho de caixa na Safra 2010/11 por parte dos produtores.

Tabela 2: Indicadores Econômicos do Milho Verão para Regiões Selecionadas


 Atualizado em 30/06/11

1: a produtividade da Safra 11/12 considera a média dos últimos 5 anos mais incremento tecnológico esperado
2: O custo operacional de produção inclui arrendamento de terra e despesas pessoais do produtor, mas não considera depreciação de máquinas e benfeitorias e nem custo de oportunidade da terra e do capital.

Gráfico 4: Rentabilidade Operacional do Milho Verão (R$/ha)


 
Dessa forma, a perspectiva é de que, para a Safra 2011/12, a rentabilidade dos produtores de soja e milho verão continuará em patamar satisfatório, abaixo da rentabilidade da safra passada para a cultura da soja e acima da rentabilidade da safra passada para a cultura do milho verão. Nessa safra, a margem está sendo compartilhada com os fornecedores de insumos (fertilizantes e sementes), que estão aproveitando o bom momento da cadeia para reajustar seus preços, mais baixos em 2010. O setor de fertilizantes foi capaz de se apropriar melhor nesse contexto. Já o setor de defensivos, em função da maior concorrência de empresas no setor, não foi capaz de reajustar os preços, principalmente para os produtos de menor diferenciação tecnológica. As empresas de sementes, principalmente de milho, também melhoraram os preços de venda aos produtores na Safra 2011/12.
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Troca & Securitização

O mercado aproveitou as boas condições de preços no primeiro semestre para soja e milho e adiantou bastante as negociações através de troca e prefixação. No caso da soja no MT, por exemplo, o boletim do IMEA de 04/07 estima que os produtores operaram em um preço médio limitado no máximo a US$ 24,00/SC. Considerando variações de pontos de entrega, etc. podemos inferir que a maioria dos produtores do MT vendeu parte da sua safra na faixa entre US$ 21,00 e o limite de US$ 24,00/SC. Segundo o próprio IMEA, “o comprometimento, que no mesmo período do ano passado foi de 15%, chegou a 21% este ano e poderia ter sido maior”. As fixações partiram mais das revendas que das originadoras de grãos. Houve distribuidor que carregou a posição sem hedging por um período de 30 a 60 dias.  É pratica comum, mas um pouco perigosa nesses tempos de volatilidade.

No algodão, houve uma inversão do quadro. No início do ano, com os preços na casa dos R$ 4,00/lb, havia uma desconfiança de que o default dos produtores podia aumentar com propostas de washout dos contratos por conta do descolamento dos preços. Mas o que ocorre no momento é algo inusitado e preocupante para os produtores. Como o risco de desabastecimento era alto no final do ano passado, muitas empresa e tradings adiantaram compras mesmo com os preços altos. Ocorre que a demanda pelo algodão no mercado global arrefeceu, o estoque foi revisado para cima, os preços caíram (hoje na casa de R$ 1,6/lb), e agora quem quer abrir os contratos são os compradores. Com isso, as vendas feitas entre R$ 3,00 e
R$ 4,00/lb estão no risco de washout da indústria têxtil doméstica e dos exportadores. Uma inversão rápida do cenário.

A questão aqui não é se o produtor vai passar do lucro para prejuízo, mas sim se sairá de um resultado fantástico para um resultado ainda muito bom. Sem dúvida, não seria justo, pois é a situação inversa ao que nos conta a história, quando na maior parte das vezes eram os produtores que abriam os contratos. Seja como for, é lamentável, nas duas situações, para o bem do mercado, pois os contratos a termo devem ser honrados, independentemente da evolução dos preços. Caso confirmem-se as expectativas, perde o produtor. Isso não coloca os cotonicultores em nenhuma posição de elevado risco para o crédito, mesmo porque os preços de R$ 1,60/lb ainda são altamente remuneradores, mas prejudica a recuperação dos mais endividados, que viram nesses contratos bem vendidos uma excelente oportunidade de virar o jogo.
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Crédito & Recebimento


O mercado segue bastante tranqüilo nesse quesito. O bom resultado da safra 2010/11 para a maioria das regiões permitiu uma recuperação do fluxo de caixa dos produtores, sobretudo os de algodão e café, que vinham amargando sucessivas safras de resultados modestos ou negativos.  Os problemas vêm sendo pontuais e mais relativos a poucas revendas ou produtores com problemas mais graves. No lado da pecuária, os problemas com frigoríficos acabaram afetando mais o mercado financeiro, mas por reflexo deixou alguns produtores fornecedores na fila de cobrança, o que gera efeitos microrregionais para os pecuaristas. 

Com 2012 na tela, o mercado busca organizar suas informações creditícias com novas ferramentas de operação como o IAGRO e o cadastro positivo do SERASA.

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Dinâmica dos Preços
                       

ALGODÃO:

A proximidade da safra e a baixa demanda interna pelo produto são consideradas as principais causas da queda do preço da pluma de algodão. As indústrias operam com cuidado, comprando apenas o necessário para atender necessidades momentâneas, pois têm a expectativa de que o preço do produto diminua no decorrer da safra. O fornecimento do produto em junho ainda era pequeno, entretanto, alguns vendedores aceitaram negociar a preços mais baixos, tendo em vista que ainda necessitam vender os lotes restantes da safra 2009/10. Com o avanço da colheita, a tendência é de que os preços continuem diminuindo, entretanto, a fim de atenuar os efeitos sazonais do excesso de oferta, o país terá que escoar um bom volume para o mercado externo. Para o futuro, o interesse em negociar no mercado spot somado aos preços do mercado externo devem ditar o ritmo dos preços do algodão.

ÁLCOOL HIDRATADO:

O produto apresentou elevação de quase 14% no período analisado, chegando ao patamar de R$1,15/litro. O aquecimento da demanda e a expectativa de oferta inferior à do ano passado pressionam os preços do etanol para cima. Além disso, as indústrias sucroalcooleiras atribuem esse aumento à elevação nos custos de produção, que segundo elas foi de 12%. Algumas usinas ainda aumentaram a oferta no mercado à vista, o que não foi suficiente para a estabilidade dos preços. Dados da UNICA indicam que 44% da cana foi destinada à produção de açúcar e 56% à produção de etanol.
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Câmbio



                                                  

O período de junho e início de julho de 2011 foi marcado pela maior cotação do Real (R$1,553/US$) desde 1999, no dia 05/07. Observamos que o dólar se desvalorizou cerca de 30% perante o Real nos últimos 5 anos.

A crescente valorização do Real vem acarretando uma desindustrialização de alguns setores, como vem acontecendo em diversos países, o que é fortalecido pela política de desvalorização cambial provocada pela China.

Segundo Guido Mantega, o fim da guerra cambial se dará quando os países desenvolvidos se recuperarem, dependendo assim de suas estratégias de políticas monetárias no tocante à manutenção da taxa de juros. Além disso, o Ministro cita a reforma do sistema financeiro internacional e o controle de capital como medidas necessárias para conter a taxa de câmbio. O problema, segundo ele, não é o superaquecimento das economias emergentes, como alguns afirmam, mas o subaquecimento dos países desenvolvidos. Isso leva a uma forte entrada de capitais nos países emergentes. No Brasil, no primeiro semestre desse ano, contabilizou-se a entrada de quase US$40 bi, aumento de 1084% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para conter a crescente apreciação do Real, foram tomadas, no final de 2010, medidas macroprudenciais, como a elevação de depósitos compulsórios e maior requisito de capital para certas operações de crédito. Ao conter o crédito, e assim a inflação, as medidas tomadas pelo Banco Central diminuem os riscos sistêmicos de inflação. Adicionalmente, ao não utilizar apenas a taxa de juros como medida preventiva, o Banco Central contribui para evitar desequilíbrios no mercado cambial brasileiro. No entanto, apesar do câmbio valorizado, o governo anunciou que não deixará de aumentar a taxa de juros, principalmente como medida de combate à inflação, como revela o último Boletim Focus, segundo o qual a taxa deve chegar a 12,75% a.a no final de 2011, frente ao 12,25% a.a atual. Como medida para conter o câmbio, o Banco Central está intervindo nos mercados futuro e derivativos.

Segundo o último Boletim Focus, a expectativa é de que o dólar encerre 2011 ao nível de R$1,60/US$, o que demonstra uma percepção dos agentes econômicos de que o Real está sobrevalorizado.
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Viabilidade & Liquidez



Liquidez

A safra de inverno está entrando no mercado, sobretudo a de milho, com bons preços. Apesar da quebra de 20 a 30% no Oeste do PR, Sul e MT, a colheita será positiva na geração de caixa para os produtores na maioria dos casos. No extremo, temos produtores com prejuízos materiais que podem enfrentar problemas de liquidez, mas serão casos pontuais, principalmente para aqueles que já traziam um elevado grau de endividamento de safras anteriores. Hoje, o risco que envolve a safra de inverno, sobretudo a safrinha de milho, é o elevado custo das lavouras, plantadas com mais tecnologia que no passado. É um quadro de investimento que permite maior remuneração nas colheitas normais, mas pode criar mais impacto negativo no resultado no caso de insucesso na colheita. Outro aspecto que impactou a liquidez na maioria das regiões foi o aumento da venda à vista de insumos para a próxima safra verão, principalmente no Cerrado. 

Viabilidade

Apesar da alta dos insumos, as culturas seguem oferecendo rentabilidade positiva para os agricultores. No caso do algodão safra 10/11, temos ainda uma rentabilidade estimada de R$ 1.489,00/ha (L.E.Magalhães para 109,04 @ pluma) , enquanto na soja, para a mesma região, as projeções para 11/12 indicam rentabilidade de R$ 780/ha, para uma produtividade de 50,48 sc/ha. Ou seja, apesar dos impactos negativos nos resultados inicialmente projetados, ainda sim não há o que reclamar, se compararmos o histórico das duas culturas.
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Nota: A Agrosecurity não se responsabiliza pelo uso indevido do conteúdo do Boletim para efeito de definição de limite de créditos individuais ou da exposição financeira regional. Por se tratar de uma avaliação do quadro geral (médio) dos aspectos econômicos e financeiros, pode haver divergências significativas da situação real de liquidez e viabilidade de um produtor rural em particular


 Editorial
  A Rentabilidade da Próxima Safra de Grãos: Felipe Prince Crédito e Troca: Fernando Pimentel  Câmbio e Edição: Claudia Tomanik





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